Escândalo no quarto. Caitlin Crews

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Escândalo no quarto - Caitlin Crews


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Não sou uma personagem de um conto de fadas.

      Lauren arrependeu-se assim que o disse. Porque haveria de participar nesse disparate, fosse o que fosse? No entanto, não conseguia evitá-lo.

      – Os contos de fadas não são reais e também não quereria ter nada a ver com eles, mesmo que fossem.

      – É uma pena. O que são os contos de fadas senão um compêndio de todas as tentações da humanidade? Fantasias, imaginações sombrias…

      Lauren pensou que não havia nenhum motivo para que sentisse esse nó na garganta nem para que tivesse de engolir em seco…

      – Tenho a certeza de que o trabalho de algumas pessoas, ou falta dele, lhes permite dedicar o tempo a pensar nos méritos dos contos infantis – replicou ela, num tom que ela própria sabia que era muito pedante –, mas receio que o meu trabalho seja mais adulto.

      – Claro, não há nada tão adulto como fazer o que outros ordenam.

      Lauren sentia-se deslocada e era algo que nunca lhe acontecia. Sentia os lábios inchados, mas não queria tocar-lhes para verificar. Não queria dar-lhe essa vantagem, visto que lhe indicaria que era vulnerável e isso era excessivo. Na verdade, era intolerável que tivesse alguma vulnerabilidade.

      – Ninguém pode viver numa cabana num bosque e conservar a prudência.

      Se esperara que olhasse para ela com fúria, teve de ficar com essa vontade, porque se limitou a continuar a olhar fixamente para ela com esse sorriso e esse brilho prateado nos olhos que a derretia por dentro.

      – O teu estalajadeiro avisou-me de que estavas a caminho.

      Recuou um pouco e ela sentiu-o tanto que ficou mais humilhada. Tinha alguma coisa na forma de se mexer que fazia com que quisesse aproximar-se, com que quisesse esticar as mãos e…

      Naturalmente, não o fez. Cruzou os braços para o conter e conter-se ao mesmo tempo e tentou olhar para ele com o sobrolho franzido como se, assim, pudesse expulsar todas essas sensações tão incómodas.

      – Poderias ter-te poupado o incómodo e o passeio – estava a dizer ele. – Não quero saber do teu patrão rico e, efetivamente, sei quem é. Podes ficar tranquila. Não estou interessado nele, na mãe ou no testamento de pessoas desmesuradamente ricas que, provavelmente, teria odiado se as tivesse conhecido.

      Lauren sentiu-o como uma traição, quando não devia ter sentido nada. Não era pessoal. Ela não tinha nada a ver com as famílias Combe e San Giacomo, era apenas uma empregada e agradecera-o muitas vezes, porque bastava o contacto com os muito ricos e conhecidos para estar agradecida com o que tinha e com o facto de o ter conseguido sem ter tido de suportar a observação dos outros ou o peso do passado.

      No entanto, irritava-a que aquele homem rejeitasse o que lhe correspondia… e sentia um formigueiro nos lábios. Conseguia recordar tão vividamente como a beijara que conseguia saborear outra vez a sua virilidade implacável. Tudo isso se misturava e formava um nó que a embargava.

      – O meu patrão rico é o seu irmão – recordou-lhe ela, num tom mais cortante do que o necessário. – Não se trata de dinheiro, trata-se de família.

      – Uma família muito rica – indicou Dominik, com um olhar duro –, e que, para começar, não me quis. Acho que vou poupar-me uma reunião cordial organizada devido ao capricho de uma mulher morta.

      Lauren segurou-lhe o pulso quando lhe tocou no queixo com uma mão. Devia tê-la afastado com uma palmada, mas era tudo meloso, espesso e lento e ela só sentia como a agarrava, como lhe agarrava o queixo com uma espécie de certeza que fazia com que tudo vibrasse por dentro, em contraste com a firmeza da sua mão. Suavizou-se, derreteu-se…

      – Gosto do sabor – murmurou ele, num tom sarcástico, letal e insuportável, embora ela não se afastasse. – Não sabia que uma loira tão cortante podia ter um sabor tão doce.

      Quando as suas palavras chegaram por completo ao interior desconhecido e palpitante dela, ele já se virara e já se dirigia para a cabana.

      Lauren achou que se odiaria para sempre pelo ardor que sentia nos olhos, porque não se lembrava de ter permitido que brotassem umas lágrimas de fúria.

      – Vamos ver se o entendi bem.

      Disse-o atrás dele e, certamente, não reparou na sua musculatura nem imaginou que as mãos dele a percorriam de cima a baixo para se maravilhar com o seu corpo…

      – O estalajadeiro avisou-o e isso significa que sabia que vinha. Também lhe disse como estava vestida para que pudesse contar essa história do Capuchinho Vermelho? Isso torna-o o Lobo Mau, não é?

      Deu por si a segui-lo através da clareira como se não a tivesse alterado e isso não podia ser prudente. Como se não a tivesse beijado até quase perder os sentidos… Contudo, não estava a pensar nisso porque não podia fazê-lo. Se pensasse nisso, não pensaria em mais nada.

      – Há todo o tipo de lobos nos bosques da Europa.

      A sua voz pareceu mais sombria, sobretudo, quando se virou e voltou a olhar para ela de cima a baixo… e teve o mesmo efeito do que antes. Olhar para ela era como observar uma tempestade.

      – Mau é uma descrição como outra qualquer – acrescentou ele.

      Percebeu que ele não respondera à pergunta.

      – Porquê?

      Lauren parou a meio metro dele, mais ou menos, e pôs as mãos na cintura com o xaile aberto. Aborreceu-se com essa parte de si própria que se emocionou quando ele olhou para a corrente delicada de ouro que lhe pendia do pescoço e para a blusa de seda que tinha por baixo. Os seios e os mamilos endureceram, mas devia ser uma reação ao frio repentino, não a ele…

      Passara anos a usar sapatos que lhe recordavam que era uma mulher e com a esperança de que esse dia fosse o dia em que Matteo a via como uma, para variar. Nunca o fizera nem o faria.

      Aquele homem, pelo contrário, fazia com que se sentisse disparatadamente feminina sem se esforçar.

      Tentou convencer-se de que o que sentia era uma indignação absoluta, mas essa vertigem impedia-a de acreditar.

      – Porque te beijei? – Lauren viu o brilho dos seus dentes, como se ele quisesse sorrir e se arrependesse no último momento. – Porque queria, Capuchinho Vermelho. Por que outra razão seria?

      – Talvez me tenha beijado porque é um porco – acusou ela, com frieza. – Algo que costuma acontecer aos homens que perdem o domínio sobre si próprios.

      O rosto dele refletiu uma espécie de prazer sombrio.

      – Parece-me que misturou as histórias. Além disso, em qualquer caso, quando há porcos, também há bufos e, se não me engano… sopros. – Ele inclinou a cabeça como se quisesse recordar-lhe como era indómito e como estava afastado das experiências dela. – Estás a insinuar-te?

      Sentiu uma labareda por dentro, mas não se deixou levar, não se deixou dominar pelas imagens do que ele poderia chamar «sopros».

      – Muito engraçado – troçou ela, antes de se envergonhar ainda mais. – Não é de estranhar que um homem que vive numa cabana no bosque tenha tempo suficiente para mudar os contos de fadas ao seu gosto, mas não estou aqui por si, senhor James.

      – Chama-me Dominik. – Ele sorriu, mas ela não se deixou enganar por esse sorriso. – Imagino que o senhor James fosse o meu pai, mas nunca conheci esse homem.

      – Gosto da sua estratégia. – Lauren tentou outra tática antes de pensar no beijo. – Pôs-me no meu lugar, obrigada, e adoraria ir-me embora e contar ao meu patrão que o melhor que poderia fazer é não reconhecer o ermitão bárbaro que vive no bosque como o seu irmão perdido, mas receio que não possa.

      – Porquê?

      – Porque tanto faz porque está aqui e se é um bárbaro, um ermitão ou um patife que não sabe lidar


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